Em 1868, a farmácia dos irmãos Azevedo, no rossio, era o ponto de reunião de destacadas individualidades de época. O serviço de ataque a incêndios, na capital, não estava à altura do que devia ser, e numa das conversas havidas na farmácia levantou-se a questão diante do Dr. José Isidro Viana, (irmão do banqueiro Francisco Isidoro Viana, fundador do Banco Fonseca, Santos & Viana) então vereador da Câmara Municipal de Lisboa e do Inspector dos Incêndios Carlos José Barreiros.
A população da cidade andava deveras preocupada com os numerosos e violentos incêndios que, por toda a Lisboa, se manifestavam sem ser possível domina-los convenientemente, por deficiência de pessoa e material, dada exígua verba destinada pelo erário municipal aos respectivos serviços.
Às conversas da farmácia Azevedo assistia Guilherme Cossoul que em dia de acessa discussão, a 18 de Setembro de 1868 – ouvindo a promessa feita pelo vereador Isidro Viana de promover que na primeira sessão da Câmara Municipal fosse aprovado um aumento de sete contos na verba municipal para os Bombeiros, alvitrou que se organiza-se uma companhia de voluntários bombeiros. Aceitou-se a ideia; Cossoul soube contagiar os ouvintes, fez propaganda e, nesse mesmo mês promovia uma reunião no edifício da abegoaria municipal onde estava instalada a inspecção dos incêndios.
Merecem aqui especial destaque os nomes dos beneméritos assistentes de uma tal reunião e que deram vida à ideia de Cossou e que assim constituíram a primeira Companhia de Voluntários Bombeiros:
Eleito Comandante Guilherme Cossoul, assentou-se na compra de uma bomba braçal, de caldeira, logo encomendada ao industrial Cannel ir 180 000 reis e paga por um anónimo.
Alugou-se uma casa para Quartel e recolha da bomba na travessa André Valente; recrutaram-se condutores entre os aguadeiros do chafariz de São Paulo , Rua Formosa, Tesouro Velho e Carmo. Marcaram-se exercícios para as quintas-feiras e assim se tornou realidade a aspiração daqueles beneméritos cidadãos que alugaram para sede associativa e reuniões uma casa na Travessa do Carvalho.
Ocorreram à inscrição de sócios os nomes mais destacados do comércio, da aristocracia, das ciências e artes, assim como muitos membros da colónia inglesa que acolheram a ideia com entusiasmo.
O príncipe Dom Carlos inscreveu-se como sócio para que a companhia ostenta-se o título de «Real» e na tarde de 18 de Outubro de 1868 fazia-se no pátio da Abegoaria Municipal o primeiro exercício público, procedendo-se ao mesmo tempo à experiência da bomba.
O baptismo de fogo dos novos bombeiros deu-se à uma hora da madrugada do dia 22 de Outubro de 1868, no edifício das Tercenas, na Travessa da Praia de Santos.
O povo, apreciando e querendo distinguir os novos soldados da paz, que tanto entusiasmo mostrava na sua arriscada e desinteressada missa, passou a distingui-lhos com a denominação da «Bomba dos Fidalgos».
A página 81 do relatório apresentado à Câmara Municipal de Lisboa pelo inspector Carlos José Barreiros, relativo ao estado dos serviços de incêndios em 1870 destacamos esta passagem:
“Ocupando-me de Bombeiros não posso terminar sem aproveitar o ensejo para pagar o devido tributo de homenagem e reconhecimento à Associação Humanitária que sob o modesto titulo de «Bombeiros Voluntários» tantos e tão apreciáveis serviços tem feito a esta cidade nos dois últimos anos. Prosperam rapidamente em Inglaterra e mesmo em França, as Sociedades desta índole, havendo algumas que possuem alem dum excelente material de socorros, um pessoal respeitável, tanto pelo numero e qualidade, como pela instrução. A cidade de Lisboa deve fazer ardentes votos para que esta benemérita associação se engrandeça e seja apreciada como merece.”
O almanaque dos Bombeiros para 1879 (1º ano de publicação), reportando-se às corporações existentes refere-se aos Bombeiros Voluntários de Lisboa nos seguintes termos:
“Quartel no Largo Barão de Quintela. Chefe Guilherme Cossoul; Subchefe Darlaston Shore; 2 Chefes de secção, 4 primeiros patrões, 4 segundos ditos, 18 aspirantes, 2 primeiros sotas, 1 segundo e 14 condutores. Material: 1 bomba com 5 agulhetas, 1 manga de salvação, 1 machado, 1 escada de ganchos, 1 espia, 8 archotes, 1 carro de mangueiras com 200 metros de manga de lona, 1 agulheta, 1 chave de boca de incêndio de calçada, 1 dita de parede, 1 martelo e 12 francaletes de sela”.
Em 4 de Julho de 1880 manifestou-se um violento incêndio na Rua do Moinho de Vento, residencia do Presidente do Conselho de Ministros, Anselmo José Braamcamp. Os voluntários Alfredo da Cruz e Richard Lambert salvaram com risco de vida duas criadas da família e o soldado da guarda municipal nº 34 da 2º Companhia que tentando fazer salvados não pôde retroceder para a rua. Por tal feito, o Governo condecorou os dois voluntários a medalha de prata de D. Maria II, atribuída ao mérito, filantropia e generosidade.
O uniforme dos sócios activos consistia em calça e casaco de tecido azul, este com duas ordens de botões, charlateiras de três pernas de verniz preto, cinto de couro, machado com guardas de metal, espia entrelaçada a tiracolo, e capacete de couro do padrão dos Bombeiros Municipais de Lisboa, com um emblema composto por um V sobreposto por dois machados cruzados, e encimado pela coroa real.